Confrários!: Neologismo utilizado pelos participantes da Confraria, nascido da junção das palavras confrades e revolucionários!
sábado, 1 de dezembro de 2012
Fragmentos da Poesia Marginal: "Contos da meia-noite"
CONTOS DA MEIA-NOITE
(Éric Meireles de Andrade)
Depois de amanhã é ano novo.
Cheguei ontem em São Paulo
Preparando-me para o sorriso de meu amor.
Ligo o rádio para voar o tempo
Pego a caneta e antes de escrever um poema
E me rebaixo em contas infinitas.
O tempo passa em compasso egoísta
Ainda assim, descanso a caneta e as camisas já estão passadas
E troco o rádio pela TV sem graça.
Estou enfadado... Não sei o que faço...
Mas na hora de meu total desalento
O milagre pula em forma de programa.
Começo a ver e ouvir um conto na TV,
Brasileiro por princípio e adorável por essência.
É meia-noite, e a arte se funde na tosca tela.
Paraíso de novidade!
A cultura mata por segundos a massificação vulgar.
É presente de ano novo
É novidade viva, com cheiro de arte e povo...
Fragmentos da Poesia Marginal: "Não preciso!"
NÃO PRECISO!
(Éric Meireles de Andrade)
Eu não preciso de nada disto!
Não preciso do cigarro que me envenena
Não preciso da bebida que me entorpece
Não preciso das putas que me amaldiçoam.
Não preciso de nada disto!
Não preciso ficar calado quando grito
Não preciso sorrir quando não quero
Não preciso esperar um amigo quando caio.
Não preciso de nada disto!
Não preciso rezar para ser salvo
Não preciso abaixar a cabeça quando quero é levantá-la
Não preciso ser hipócrita quando falo.
Não preciso de nada disto!
Não preciso do dia quando amanheço
Não preciso me alienar para ser justo
Não preciso do gozo para estar satisfeito.
Não preciso de nada disto!
Não preciso amar quando sinto repúdio
Não preciso dormir quando leio um manifesto
Não preciso elaborar quando faço.
Não preciso de nada disto!
Não preciso de porcarias para me alimentar
Não preciso estudar o que não me elucida
Não preciso peidar para ser indigesto.
Não preciso de nada disto!
Não preciso de horários que escravizam
Não preciso das borboletas quando admiro as lagartas
Não preciso da fumaça quando atiço fogo.
Não preciso de nada disto!
Não preciso da morte quando ainda vivo
Não preciso ser velho quando ainda nem nasci
Não preciso ser assado quando quero ser assim.
Não preciso de nada disto!
Não preciso estar preso para valorizar a liberdade
Não preciso dançar para ter sensualidade
Não preciso ser burro para ser útil.
Não preciso de nada disto!
Não preciso de minha boca quando olho
Não preciso da saliva quando desejo
Não preciso da lágrima quando choro...
... Amém...
Fragmentos da Poesia Marginal: "Dialéticas"
DIALÉTICAS
(Éric Meireles de Andrade)
Brigas simultâneas e desordenadas...
O oposto luta por seu espaço
Para continuar um ciclo de mesmice.
Um oposto que é ao mesmo tempo o mesmo,
E sua luta em seguir a reta do caminho
Perpassa pelas encruzilhadas das escolhas.
Mas há a necessidade da mudança...
O número não deve acompanhar a qualidade
E nem o gozo em rostos distintos de prazer.
Lutas dialéticas entre o velho e o nada
Entre a qualidade e o tudo,
Entre a quantidade e o novo...
Fragmentos da Poesia Marginal: "O texto e a poesia"
O TEXTO E A POESIA
(Éric Meireles de Andrade)
Hoje, em vez da noite
Me presentear com um poema,
Tenho que me contentar
Com a presença de um texto frio.
Um texto chato
Parido por mim como um bastardo
E usado apenas para carregar
Meu salário e minha reputação de mentira.
São dois filhos de caracteres distintos...
A poesia carrega minha singeleza de menino
E a glande tesa de sonhos almejados.
É minha filha que me dá benção quando vai dormir.
Enquanto o texto
É corpulento de exatidões estúpidas
Bronco de liberdade em dizer além do óbvio,
Assexuado e ganancioso quando exposto numa ágora.
Mas o texto é feio e persistente,
Faz-me carinho quando estou dormente
E me embala cantigas de dormir
Quando luto contra minha insônia latente.
Enquanto a poesia é caprichosa e egoísta...
Carente de presença, quando não a percebo,
Persiste em chorar ao ver que não sou mais mancebo.
Sai de meu mundo e se esconde em tempos longos
E só aparece para beijar minha face marejada de saudades...
Fragmentos da Poesia Marginal: "Poema do absurdo"
POEMA DO ABSURDO
(Éric Meireles de Andrade)
Estou farto de escrever o poema do absurdo,
Pois a ditadura democrática em que vivo não me permite.
Meus heróis foram mortos por defenderem a liberdade,
Enquanto outros (tantos), nos mostram suas caras de hipocrisia.
Eta mundo estranho, moco e torpe,
O óbvio da violência, do desemprego e da esquizofrenia social
Nos oprime e nos cala como claustro em meio-dia.
Mas ao óbvio só nos permitem criticá-lo sentado,
Mas nunca beijar sua face, molhar seu disfarce...
E quando pulamos o muro do silêncio,
Somos difamados e jogados na maldita masmorra
Do ostracismo democrático.
Por isso é difícil escrever o poema do absurdo!
Quando não mais acredito em palhaços,
Quando cuspo em falsos profetas oportunistas
E minha claustrofobia rompe prisões de martírio.Socorro!
Socorra minha alma alva!
E negra bela de belos sonhos.
Canso das mentiras de meus falsos heróis
E durmo sempre com o inimigo oculto
Babando de inveja na porta de minha alcova...
Fragmentos da Poesia Marginal: "Rua do Arouche"
RUA DO AROUCHE
(Éric Meireles de Andrade)
Ô miséria de vida!
Em plena madrugada
O largo do Arouche não pára!
Os carros sim...
Param, buzinam, engolem bundas
De moleques que só vivem no escuro.
É uma primavera mórbida,
Estranha e fugaz.
A rua do Arouche transborda
De silêncios e tráficos de inocência.
É uma miséria de vida!
A alienação mente-corpo
De meninos velhos e mortos.
Toda a existência é pouca e moca...
Perdido num prédio cor de peixe,
Lá fora ouço a polícia subornar,
Os fracos de família comerem fiado
E a briga dos postes disputando o ponto...
Ô miséria de vida!...
Assinar:
Postagens (Atom)