Confrários!: Neologismo utilizado pelos participantes da Confraria, nascido da junção das palavras confrades e revolucionários!

domingo, 22 de junho de 2014

Semana dos Poetas Contemporâneos: "Empinada", de Alexandre Rauh

Foto "Serra Azul", de Tadeu Fessel.

EMPINADA

A serra não esconde suas curvas.
Sem vergonha exibe sua exuberância.                                 
Sua silhueta contrasta com o céu e linda paisagem enche os olhos.

Após uma descida lá no fundo sobe como montanha russa...
Duas grandes luas, lado a lado, se encontram num beijo...             
Um vale entre as duas, cheio de segredos e surpresas.            
No meio do vale entre as luas uma gruta.
Escondida em silêncio misteriosa.
Uma gruta encantada, penetrar lá é chegar ao paraíso perdido.
A terra prometida de Fawcet.
O éden, de onde não deveríamos ter saído por comer uma maçã. 
É alcançar o nirvana.
É entrar nos jardins de Epicuro.
Após a gruta uma nascente...
Cheia de vida.
Uma pequena relva a cobre, samanbaias com as folhas crespas.
No cume assim e depois a folhagem se escasseia e dá lugar a paredes viscosas
                                                                                                 [que escorrem.
Sempre quente e úmida, delícia de se embrenhar, descobrir, deliciar...
Quando chove escorre mais e mais...
O cheiro de chuva entorpece, emudece.
Suas águas escorrem na serra pelada, entre as luas, no vale...
Ali empinada a serra esconde suas maravilhas,
Empinada desenha no céu sua silhueta e enche os olhos...

Caminhando pela descida profunda encontro as duas luas se beijando e empinada
                                                                        [revela o vale, a gruta, a nascente.


Alexandre Rauh

Semana dos Poetas Contemporâneos: "Amalgamar", de Alexandre Rauh

Gravura a caneta, de Alexandre Rauh.

AMALGAMAR

Quero me misturar a você.
Como trepadeira, quero me entrelaçar no seu corpo.
Quero meus sentidos todos colados aos seus.
Minha pele roçando na sua.
Meu cheiro misturado ao seu.
O gosto de seu suor e saliva me entorpecendo.
Quero olhar seus olhos e ver mais que o reflexo meu, quero olhar sua alma.
Quero ouvir sua voz sussurrante e seus grunhidos.

Quero minha vara verde sustentando sua flor, 
Regando com vida suas cores,
Levando sabor às suas pétalas,
Perfume ao seu botão.
Quero te segurar em pé e te sustentar.
Te elevar.
Quero te fazer ver pássaros azuis...

Quero tudo. Nossos corpos se fundindo,
Nossos sentidos a mercê,
Nossa mente expandindo.
Quero amalgamar você.


Alexandre Rauh

Semana dos Poetas Contemporâneos: Alexandre Rauh

Foto: Sheila de Paula





Semana dos Poetas Contemporâneos: "Homem Urbano", de Alexandre Rauh

Gravura em Grafite, de Alexandre Rauh.


HOMEM URBANO

Cercado de cima a baixo,
De lado a lado,
Vivo preso entre um encaixo.

Povoações de concreto -
Armado!
Esqueleto decrepto.

Tanta gente vai e volta.
Me sinto, a escoria
De um mundo mudo sem revolta.

Vem e vai. Some!
Uma coisa simplória:
De ouvidos tenho fome.

Me sinto sozinho.
Quero dizer. Pena!
Ninguém quer escutar.
Para que tanta cera?!...
Deviam me deixar só.
E não mais voltar!
De uma só vez!
Para do medo-solidão não restar pó.

De que adianta pesar,
Viverem comigo...
E não me notar?!

Me olham tão frio,
Sobre olhos em redes:
Num semblante perigo.
Estou falando com as paredes?!


Alexandre Rauh

Semana dos Poetas Contemporâneos: "Cálice", de Alexandre Rauh

Gravura em grafite, de Alexandre Rauh.


CÁLICE

O cálice não me oprime.
Meio cheio ou meio vazio,
Não é ele, sou eu quem digo.
Liberdade é não ser unânime.


Alexandre Rauh

Semana dos Poetas Contemporâneos: Alexandre Rauh

Foto: Sheila de Paula